Eu estou velho quando a moda é ser jovem. Eu choro quando sorrir está na moda.
Novamente, a ponto de explodir
severinar:
As pernas são curtas demais pra correr do peso do mundo. Não há outras pernas, não há quem te carregue nos braços, e nem quem te de um empurrão. Será sempre a mesma coisa. O choro no canto do quarto tentando suster o ódio. Eu que calo a boca pra falar de mim, engulo as lágrimas pra ninguém ver fragilidade. É tudo tão vazio. Acho que não entenderiam se fosse uma carta suicida, sendo que a minha fé ao ser me cai na palma da mão quando estou totalmente ser forças pra segurar. Digo que não se enganem, fossa não é abismo, queda não é tombo. E eu ralei a minha alma no asfalto grosso, sem ninguém se importar. As pernas se quebram, e você sente que não existe fuga quando o mundo traga de você. Sente que suas veias são quadradas e o sangue arde e quer sair rasgando a pele, talvez isso seja loucura. O sangue sempre sai, e o ódio vai junto. No fim, tudo é apenas mais uma psicose, tudo.
A trama é comédia. E se houvesse explosão, teria até uma gargalhada no final.
John
Para recuperar a minha juventude era capaz de fazer tudo no mundo, excepto ginástica, levantar-me cedo, ou ser respeitável. A Juventude! Não há nada que se lhe compare. É absurdo falar da ignorância da juventude. Hoje em dia só tenho algum respeito pelas opiniões das pessoas muito mais novas do que eu. Parecem-me estar à minha frente. A vida revelou-lhes a sua última maravilha. Quanto aos velhos, contradigo-os sempre. É uma questão de princípio. Se lhe pedirmos opinião sobre uma coisa que aconteceu ontem, eles dão-nos solenemente as opiniões correntes em 1820, quando as pessoas usavam golas altas, acreditavam em tudo e não sabiam absolutamente nada.
Eles se amam, todo mundo sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossível. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo, outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é difícil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontrem e que nada, nada seja por acaso.”’
Às vezes, me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há uma câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim.
(…) Crescido. Forte. Saudável. Perfeito. Eu não tenho motivos para reclamar. A morbidez dessa felicidade de fantoches me abomina. É pior do que uma mentira, é uma mentira real. Eu queria ter pelo menos o indício de que já fui infeliz. Eu precisava de provas. Era mais que um desabafo, era a necessidade de manter-me vivo e lúcido. O meu desabafo era a voz que nunca escutei. A voz que imagino como é. A voz que sai do espelho, direto da boca do homem sem rosto e sem documento, que só tem passado e nada mais. Eu só queria alguém que sentasse ao meu lado e dissesse que tudo bem não ser perfeito por dentro. Tudo bem, não chore, vai passar. Você é só um garoto triste. Eu deixo você crescer. Eu faço os seus ossos pararem de doer. Eu deixo você sair dessa bolha de proteção do mundo e chorar a sua dor. Eu deixo você voltar no tempo por um segundo, fechar os olhos e dizer adeus ao seu primeiro amor. Eu quero que você se despeça, devagar, que aproveite os beijos na bochecha, que nade no riacho pela última vez. Quero que você leia o seu livro de dez páginas saboreando cada ilustração. Que você perdoe as baleias por serem tão grandes. Que você afaste os móveis da sala pela última vez. Tudo bem se você não quiser pular do ninho agora. Você nunca esteve preparado, mas eu sei que você se esforçou. Eu só quero alguém que diga que eu preciso cortar o cabelo. Mas ninguém diz nada. Todo mundo só concorda comigo quando eu digo que o que passou, passou. Que a vida continua, que o meu maior sonho é ser um advogado quando o meu maior sonho é só que alguém entenda o que eu preciso ser. E que por favor, me explique. Alguém que me sirva de apoio e que diga ao mundo que eu não quero falar com ninguém. Que eu não gosto de celular, bebida, festança ou simpatia. Que eu tenho vergonha de existir. Que eu sou só um menino ateu, sem graça, sem casa com direito ao Bolsa-Tristeza que foi deixado na porta de uma felicidade instantânea. (…) Alguém que seja para mim o simples prazer de ser alguém que não foi embora. Ainda. Alguém que não queira escutar a minha voz. Alguém que explique ao resto das pessoas que sou uma pessoa feita de restos e que choro por pouca coisa. Choro, por exemplo, pelo sorriso de um homem mudo. Que gosto de chocolate quente antes de dormir, que acho que a saudade tem os mais belos olhos do mundo, quero alguém que beba o oceano de canudo para que eu não tenha mais medo de gigantes. Alguém que me leve para chorar num mundo distante, porque não há mais cantos nesse mundo onde esteja abandonado o suficiente para ser o que eu sempre fui. Não há dor maior que se acumule no meu coração e faça aquela saudade poder ser transbordada até a última gota. Não há saudade maior do que a saudade que eu sinto dos olhos de saudade. Queria mais fios, mais sangue, mais sentimento de culpa, mais ressentimento, mais despedidas para que respire aliviado novamente. Para que eu consiga dormir uma noite sem lágrimas. Esse mundo perfeito dói. Esse mundo de mentira que não é de mentira dói profundamente. Eu queria ter forças para sugar a última gota de chocolate que sobrou na minha caneca azul preferida. Meu Deus, quando foi que eu perdi as minhas cores? Quando foi que meus textos encheram-se de interrogações? Aliás, quando é que eu comecei a escrever? Quando foi mesmo que eu comecei a ser feliz? Eu, honestamente, tenho muita coisa pra lembrar. Tenho que lembrar que sou perfeito, que sou só passado, que os exames de cardiologia deram em nada de novo. Eu sou um menino de muita sorte. Tenho que lembrar que sou um menino de muita sorte. Que não tenho motivos para ser o que sou. Triste, vazio, perdido. Mas quando a noite acaba, meu bem, quando a noite acaba e as quatro paredes do quarto adormecem, eu sempre acabo assim. Sozinho.
Um
Cinzentos que ninguém sabe que existe. (via
severinar)
Estar bem e feliz é uma questão de escolha e não de sorte ou mero acaso. É estar perto das pessoas que amamos, que nos fazem bem e que nos querem bem. É saber evitar tudo aquilo que nos incomoda ou faz mal, não hesitando em usar o bom senso, a maturidade obtida com experiências passadas ou mesmo nossa sensibilidade para isso. É distanciar-se de falsidade, inveja e mentiras. Evitar sentimentos corrosivos como o rancor, a raiva e as mágoas, que nos tiram noites de sono e em nada afetam as pessoas responsáveis por causá-los. É valorizar as palavras verdadeiras e os sentimentos sinceros que a nós são destinados. E saber ignorar, de forma mais fina e elegante possível, aqueles que dizem as coisas da boca para fora ou cujas palavras e caráter nunca valeram um milésimo do tempo que você perdeu ao escutá-las.
— Gosta de mim?
— Gostar? Como assim gostar de você? Não faz sentido só gostar.
— Você não entende as perguntas! — ela gritou.
— Você que não entende as respostas.
Eu me preparei tanto para viver que fiquei no rascunho.